terça-feira, 24 de setembro de 2013

António Ramos Rosa (Faro, 17 de outubro de 1924 | Lisboa, 23 de setembro de 2013)


Fotografia de João Silva.
Disponível em: https://www.facebook.com/pages/António-Ramos-Rosa

ANTÓNIO RAMOS ROSA

 «(…) pedra que toco no ar, no princípio do ar.»
Círculo Aberto

«A vertente que desço é uma subida às vossas vidas.»
O Centro na Distância


Ano após ano habituaram-se
à companhia.
E foram trémulas feridas
ou pedras tocadas no ar,
no princípio do ar.
Será que ainda as persegue
ou perseguem-no agora as palavras?
Alguma coisa nelas
se viciou nos dias por vir,
no espaço entre a sombra e o sol,
no cavalo por dizer.
E desejam ser muro de água
ou tribo invulnerável.
E desejam ser voz abrupta
e cobrir de sal a avenida –
suor e sal no sol da avenida.
Pois aí se erguem as torres de mármore
onde o ouro se resguarda da pobreza.
Agora as palavras o seguem.
E a vertente que descem é ainda
uma subida às nossas vidas.

J. P. M.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Para além do amor, de Maria Lamas



Maria Lamas
Nascida em Torres Novas em 1893 e falecida em Lisboa em 1983, Maria Lamas foi, além de antifascista e democrata, escritora e jornalista de mérito: trabalhou em O Século, dirigiu, até 1947, Modas & Bordados, com grande sucesso, imprimindo a este semanário feminino uma nova e mais correcta orientação, e dirigiu ainda a revista Mulheres, criada em 1976. Além da sua escrita para crianças e jovens e dessas duas obras monumentais que são As Mulheres do Meu País (1950) e As Mulheres no Mundo (1952), da sua obra de criação literária para adultos cumpre destacar o livro de poesia Humildes (1923), os romances Diferença de Raças (1923), O Caminho Luminoso (1928), Para além do Amor (1935) e A Ilha Verde (1938).
Destas narrativas, Para além do Amor (reedição: Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2003), cuja acção se inicia na ambiência genesíaca e erotizante do Buçaco e se transfere depois para o Estoril e Lisboa, com uma incursão também num meio fabril dos arredores, afirma-se como pioneiro trabalho de ficção sobre os dilemas de uma personagem burguesa e católica, Marta. Casada com um industrial incapaz de reconhecer a sua individualidade de pessoa e de mulher, Marta equaciona uma alternativa de vida, que acaba por apontar para dois rumos.
Por um lado, o amor por outro homem, revelação de todo um mundo novo, tanto no plano afectivo e passional, como no do respeito mútuo – mundo esse que, no entanto, nunca a fará abrir mão da sua condição de mãe. Por outra parte, a entrega a um pensamento social e, finalmente, à acção, já que a relação amorosa de Marta com Gabriel – que não conhecerá um happy end – fará nela desabrochar uma renovada atenção aos outros, em especial aos deserdados, a quem os bens de uma vida digna, com educação e cultura, são negados, por razões sociais e económicas.
Com uma recepção crítica que, à época, se dividiu face à desassombrada tematização do adultério e do papel da mulher na sociedade (v. Vasques, 2003), Para além do Amor é, além disso, um libelo contra uma moral burguesa esclerosada, patriarcal e machista, que almeja manter a mulher num limbo doméstico, reduzida ao papel de mãe e esposa, limitada à superficialidade de relações sociais de classe (a burguesia) e condenada a uma existência vazia no plano afectivo. Para conferir autenticidade a estas tensões psicológicas e sociais, a autora adopta um registo confessional, intimista e reflexivo, que a narração autodiegética potencia.
Um romance, pois, a reler, não tanto pela sua arquitectura diegética relativamente elementar, mas mais pelo seu pendor reflexivo, sobretudo no que toca à condição da mulher, em anos em que assumir tal posição constituía ainda um acto de insubmissão e de coragem.


Referência bibliográfica

VASQUES, Eugénia (2003). «Um crime de lesa romance (Maria Lamas 1893-1983)», prefácio a Lamas, Maria. Para além do Amor. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, pp. 7-28.



José António Gomes
NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto